Interpretação de textos
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Talvez não exista um assunto que demande tanto exercício quanto interpretação de textos para que se desenvolva segurança em resolver tranquilamente as questões de prova. Ainda assim, há uma breve teoria que pode facilitar um pouco as coisas.
Então, vamos a ela!
Ao final, deixo algumas questões de concursos sobre o tema, com gabarito e comentários. Confira!
Resolver uma questão de interpretação de texto é analisar se o que se afirma na questão é verdadeiro ou falso em relação texto.
A questão será verdadeira quando confirmar o texto direta ou indiretamente.
Confirma diretamente quando o texto usa os mesmos termos da questão.
Confirma indiretamente quando o texto e a questão usa termos distintos, mas com o mesmo significado. Por exemplo, se o texto diz que a pessoa faltou com a verdade e a questão afirma que a pessoa mentiu, essa questão é verdadeira, pois faltar com a verdade é o mesmo que mentir.
A questão será falsa em duas situações: quando ela contradiz o texto ou quando ela ultrapassa o texto.
A questão contradiz o texto quando afirma o contrário do que está escrito nele.
A questão ultrapassa o texto quando não pode ser confirmada pelo texto nem pode ser deduzida dele.
Como podemos ver, a teoria de interpretação de textos é bastante simples. No entanto, essa é uma matéria que demanda muita prática para se atingir um nível de excelência na resolução de questões. Portanto, é imprescindível resolver um grande número de questões de provas passadas para criar familiaridade com a matéria.
Sugestão bibliográfica
Interpretação de textos – Teoria e 815 questões comentadas (Renato Aquino)
Questões
A vida divide-se em três períodos: o que se foi, o que está sendo e o que há de vir. Desses, o que estamos atravessando é breve, o que havemos de atravessar é duvidoso, o que já atravessamos é certo. É este último de fato aquele sobre o qual a fortuna perdeu seu direito, o qual não pode ser reconduzido ao arbítrio de ninguém. Esse período os ocupados o perdem, pois não lhes sobra tempo para examinar o passado, e, se lhes sobrasse, seria desagradável a recordação de algo que lhes causaria arrependimento. Ninguém voltará de bom grado seu olhar ao passado, exceto quem submete todos os seus atos à própria censura, que nunca se deixa enganar. Quem avidamente muito cobiçou, desprezou com soberba, venceu com insolência, enganou com insídias, roubou por cupidez, prodigamente dissipou, é forçoso que tema a própria memória. Ora, essa é a parte sagrada e intocável de nosso tempo, posta acima de todos os reveses humanos, subtraída ao reino da Fortuna, e que nem a penúria, nem o medo, nem o ataque de doenças podem atingir. Ela não pode ser conturbada nem tirada: a posse dela é perpétua e sem receios. Somente um a um os dias se mostram presentes para nós, e ainda fracionados em momentos. Porém, todos os dias do passado, tão logo ordenares, estarão diante de ti, a teu arbítrio irão deixar-se examinar detidamente; isso os ocupados não têm tempo de fazer. É próprio de uma mente segura e tranquila percorrer todos os períodos de sua vida; as almas dos ocupados, como se estivessem atadas sob o jugo, não podem virar-se e olhar para trás. Portanto, a vida deles desaparece num abismo e, tal como de nada adianta verter líquido até a borda de um recipiente, se embaixo não há fundo que o receba e conserve, assim também não importa quanto tempo nos é concedido, se não há lugar onde ele possa depositar-se, se ele vaza por trincas e perfurações de nossas almas.
(Adaptado de: Sêneca. Sobre a brevidade da vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p.21-22)
1. (Analista Judiciário – TJ/CE – 2026 – FCC) De acordo com Séneca, a fortuna perdeu o direito sobre o período que
(A) estamos atravessando.
(B) havemos de atravessar.
(C) esta sendo.
(D) se foi.
(E) há de vir.
2. (Analista Judiciário – TJ/CE – 2026 – FCC) No texto, Séneca caracteriza o presente como
(A) inflexível.
(B) certo.
(C) breve.
(D) intangível.
(E) duvidoso.
Uma simples folha de papel… Ontem, num programa de TV, discutíamos entre escritores e jornalistas o drama do papel em branco na máquina e, diante dele, o pobre de nós que espreme o juízo até produzir qualquer coisa que encha as laudas necessárias e possa ir para a impressão. Acho que essa angústia existe desde que o primeiro escriba de cuneiforme, na Mesopotâmia, ficava aflito por uma ideia a gravar no tijolinho fresco, e depressa, antes que o barro secasse. Ou o emissário real, no Egito, diante do papiro virgem, rabiscando tentativamente um começo de hieróglifo sem saber o que contar na mensagem para o Faraó.
O curioso é que nem sempre, desse esforço de última hora, sai um resultado pífio. Às vezes, depois de minutos e minutos de indecisão e bloqueio, brota de repente uma ideia que é um clarão, o escriba bate freneticamente na máquina, tentando forçar os dedos a uma marcha mais veloz que a dos miolos; e em pouco ele entrega à oficina a sua melhor matéria do mês. Quando esse branco se dá na produção de livro, não tem tanta importância. O romance espera, o conto espera. E o poema só nasce na hora que quer. O jornal — que vive à custa do cotidiano e é voraz por fatos atuais e comentários sobre esses fatos, mal se consolando com projeções sobre o futuro ou meditações sobre o passado -, o jornal é que é o grande tirano. Ele é como um alto forno de usina siderúrgica que não pode se apagar nunca e exige, dia e noite, combustível, minério, e a atenção infatigável dos seus alimentadores e manobreiros.
Aliás, para fazer justiça, não é propriamente o jornal o nosso tirano. O déspota implacável é mesmo o público, de quem o jornal é apenas o humilde, solícito, serviçal. O público é quem dá sentença de vida e morte, o público é quem boceja ou aplaude. Ele é quem recorta com amor o tópico feliz, ele quem amarrota a folha enfadonha a caminho da cesta. Nessa trêmula serventia vivemos todos os que dependemos da fera, e por isso a bajulamos, hesitamos num fraseado, trocamos um verbo mais incisivo por outro mais ameno, polvilhamos com um sal de malícia qualquer flagrante inocente, descobrimos interpretações sutis ou sibilinas para o que seria apenas massudo e incolor, sem o nosso intempestivo inuendo. Mas quanto equilíbrio e cuidados são necessários para não transpor o frágil limite da verdade dos fatos e não cair no perigoso terreno da invenção! Às vezes, basta insinuar que o figurão sorriu antes da sua resposta e se derruba todo um laborioso esforço de credibilidade, em hora de crise politica.
(Adaptado de: RACHEL de Queiroz, 1990)
3. (Técnico Judiciário – TJ/CE – 2026 – FCC) O trecho em que a cronista indica que os escritores se submetem ao julgamento do publico esta em:
(A) o frágil limite da verdade.
(B) Nessa trémula serventia.
(C) perigoso terreno da invenção.
(D) bate freneticamente na maquina.
(E) E o poema só nasce na hora que quer.
4. (Técnico Judiciário – TJ/CE – 2026 – FCC) Um termo usado pela cronista para se referir ao “publico” é:
(A) fera (3º paragrafo)
(B) inuendo (3º paragrafo)
(C) emissário (1º paragrafo)
(D) clarão (2º paragrafo)
(E) usina (2º paragrafo)
Em redor da luz
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milênios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
(poema “Vela” de Sophia de Mello Andresen)
5. (Técnico Judiciário – TJ/CE – 2026 – FCC) No contexto da terceira estrofe, a “chama” pode ser descrita como
(A) vigorosa.
(B) eterna.
(C) frágil.
(D) silenciosa.
(E) impaciente.
Gabarito e Comentários
1. Gabarito: (D) se foi.
O autor divide o tempo em três partes: o que se foi, o que está sendo e o que há de vir. Logo após, afirma que o que “já atravessamos é certo” e que sobre “este último” (o passado) a fortuna perdeu seu direito. Portanto, refere-se ao período que se foi.
2. Gabarito: (C) breve.
No início do texto, Sêneca associa explicitamente os períodos: “o que estamos atravessando [presente] é breve“, “o que havemos de atravessar é duvidoso” e “o que já atravessamos é certo”.
3. Gabarito: (B) Nessa trêmula serventia.
No terceiro parágrafo, a autora define o público como um “déspota implacável” e uma “fera”. Logo em seguida, afirma: “Nessa trêmula serventia vivemos todos os que dependemos da fera…”. A palavra “serventia” indica a condição de servir ou submeter-se ao controle e julgamento desse público.
4. Gabarito: (A) fera (3º parágrafo)
No terceiro parágrafo, Rachel de Queiroz utiliza a metáfora “fera” como um elemento coesivo para retomar e se referir de forma figurada ao “público”, explicitado logo nas linhas anteriores.
5. Gabarito: (C) frágil.
Na terceira estrofe do poema “Vela”, a autora afirma que a chama é algo “Que a menor brisa doma / E que um suspiro apaga”. Essa facilidade em ser desfeita ou apagada caracteriza a chama essencialmente como frágil.

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